As eleições atraem cada vez mais ataques cibernéticos que têm como alvo políticos, empresas e o público em geral. Essas atividades vão desde campanhas de espionagem contra partidos políticos até operações que buscam influenciar opiniões, semear insatisfações ou minar processos democráticos.

Este relatório quinzenal oferece uma visão geral dos principais incidentes cibernéticos e das ameaças crescentes relacionadas às eleições gerais de outubro de 2026 no Brasil. Também apresenta recomendações sobre como organizações e indivíduos podem se proteger e mitigar esses riscos.

Principais incidentes

Nesta edição, destacamos os seguintes temas:

Experimento revela falhas na prevenção de anúncios com desinformação sobre as eleições brasileiras no Facebook

De acordo com um comunicado divulgado em 25 de agosto, a Anistia Internacional submeteu 15 anúncios relacionados às eleições e contendo desinformação para testar a moderação de conteúdo da Meta. Oito anúncios foram aprovados, enquanto os outros sete foram sinalizados, mas não rejeitados.

Ataque ao sistema de Previdência Social do Brasil com o uso de inteligência artificial

Segundo uma reportagem publicada pelo Cyber News em 9 de setembro, hackers utilizaram um agente de inteligência artificial chamado “Manus AI” para invadir sistemas associados ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), responsável pela administração da Previdência Social brasileira e de outros benefícios.

Mercado brasileiro de vigilância inteligente deve atingir US$ 7,13 milhões até 2032, ante aproximadamente US$ 2,994 milhões em 2025

A videovigilância e a análise de imagens continuam sendo as principais soluções do setor. No entanto, tecnologias de vídeo baseadas em inteligência artificial, controle de acesso, monitoramento remoto e serviços em nuvem vêm ganhando espaço rapidamente no mercado de segurança do país.

Fonte: Brazil Electronic Security & Smart Surveillance Market Moves from Cameras to Recurring Intelligence, Ken Research, 21 de setembro de 2026.

Recomendações de mitigação 

  • Revise os controles de segurança existentes para reforçar as defesas contra ameaças que utilizam inteligência artificial, garantindo que contemplem riscos como campanhas automatizadas de phishing, roubo de credenciais, geração de código malicioso e atividades de reconhecimento em larga escala. Os procedimentos de monitoramento de segurança devem ser atualizados regularmente para acompanhar a evolução das capacidades dos agentes de ameaça.
  • Reforce a segurança de identidade diante do uso crescente da inteligência artificial para acelerar atividades de invasão. Adote autenticação multifator, gestão de acessos privilegiados e monitoramento contínuo das atividades de identidades humanas e não humanas. Os direitos de acesso devem ser revisados frequentemente para garantir que estejam alinhados às necessidades do negócio e ao princípio do menor privilégio.
  • Amplie os treinamentos de conscientização em segurança para ajudar os colaboradores a identificar conteúdos gerados por inteligência artificial, tentativas de falsificação de identidade, deepfakes e informações manipuladas. Atenção especial deve ser dada aos profissionais com acesso a informações sensíveis, sistemas financeiros ou comunicações da alta liderança.
  • Incentive os colaboradores a verificar informações de natureza política sensível, relacionadas à segurança ou potencialmente capazes de gerar impactos relevantes, consultando fontes confiáveis e oficiais antes de agir com base nelas ou compartilhá-las. Os procedimentos de verificação ajudam a reduzir os impactos de narrativas falsas e operações de influência.
  • Monitore proativamente o uso fraudulento de identidades de executivos, marcas corporativas e ativos digitais em plataformas on-line.

Anúncios com desinformação eleitoral identificados pela Anistia Internacional expõem falhas na moderação de conteúdo

Segundo o artigo da Anistia Internacional, os anúncios foram enviados à plataforma de anúncios do Facebook, da Meta, para testar a capacidade de moderação de conteúdo antes das eleições brasileiras de 4 de outubro. Os anúncios simulados continham alegações falsas de fraude eleitoral e defendiam uma intervenção militar. Elaborados em português brasileiro, os anúncios se basearam em discussões nas redes sociais e conversas on-line acompanhadas pela Anistia Internacional. Eles foram enviados a partir de Londres, com o objetivo de atingir a população brasileira em idade eleitoral.

O Facebook aprovou imediatamente oito dos anúncios. Quatro deles se concentravam na “deslegitimação eleitoral”, enquanto os outros quatro abrangiam diferentes categorias, incluindo o incentivo à não participação nas eleições e a divulgação de informações falsas sobre quando e como votar. Os outros sete anúncios não foram rejeitados, mas sinalizados para que fossem adotadas medidas adicionais de verificação de identidade.

Impacto potencial: Embora a Anistia Internacional tenha programado os anúncios para serem veiculados futuramente, o que permitiu garantir que nenhum deles fosse publicado, apesar da aprovação, o episódio aponta para uma tendência potencialmente preocupante nos esforços para conter a desinformação relacionada às eleições brasileiras. Além disso, o fato de os anúncios simulados terem sido enviados sem obstáculos a partir de fora do Brasil reforça a preocupação com uma possível interferência estrangeira nas eleições de outubro e coloca em dúvida a eficácia dos esforços de moderação de conteúdo da Meta de forma mais ampla.

Suspeita de invasão ao sistema de Previdência Social do Brasil com uso de inteligência artificial

Segundo a reportagem do Cyber News, os pesquisadores identificaram o ataque pela primeira vez em julho e confirmaram que hackers conseguiram comprometer 375 credenciais de acesso pertencentes a 40 funcionários de órgãos públicos brasileiros vinculados ao INSS, à Dataprev e à Previdencia. Os agentes de ameaça também teriam roubado um número não especificado de certificados digitais durante o ataque, o que poderia permitir a interceptação ou a alteração do tráfego de dados de sites governamentais.

Os pesquisadores ainda não tinham clareza sobre a extensão da invasão nos sistemas relacionados ao INSS, mas observaram que os dados pessoais de cerca de 214 milhões de brasileiros poderiam estar em risco.

Impacto potencial: Cibercriminosos frequentemente buscam obter credenciais de acesso e dados pessoais de cidadãos para viabilizar fraudes posteriormente, e essa provavelmente também foi a motivação por trás do incidente em questão. No entanto, como os alvos iniciais do ataque foram sistemas e funcionários do governo — e os sistemas do INSS armazenam dados pessoais de cerca de 214 milhões de brasileiros —, os riscos envolvidos são significativamente maiores.

Conforme destacado na reportagem, o INSS é responsável por administrar diversos benefícios e pagamentos, além da Previdência Social, incluindo auxílios por doença, invalidez, maternidade e morte. O uso de inteligência artificial no ataque também merece atenção. Às vésperas das eleições de outubro, a segurança dos sistemas governamentais brasileiros continua sendo uma questão que suscita dúvidas.

Em foco: A evolução das urnas eletrônicas no Brasil

As urnas eletrônicas são utilizadas nas eleições brasileiras desde 1996. Segundo um artigo publicado em 22 de setembro pelo Latin American Post, o projeto do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para desenvolver os equipamentos foi motivado por um histórico de fraudes com cédulas de papel, além de eleições parcialmente anuladas no Rio de Janeiro em 1994.

Desde o início, as urnas foram projetadas para atender a requisitos específicos, como não ter conexão com a internet ou qualquer outra rede, ser portáteis e resistentes, além de permitir o uso e a compreensão até mesmo por pessoas que nunca haviam utilizado um computador.

Nas eleições de 1996, aproximadamente 32% dos eleitores utilizaram urnas eletrônicas. Esse percentual chegou a quase 58% em 1998 e, em 2000, praticamente todo o eleitorado já votava eletronicamente. Em 2002, o Brasil realizou pela primeira vez uma eleição presidencial totalmente informatizada.

Segundo o artigo, as primeiras dúvidas sobre as urnas pareciam estar relacionadas principalmente a questões tecnológicas e à falta de familiaridade com computadores. Nos últimos anos, porém, a desconfiança parece ter assumido um caráter mais político e ideológico.

Desde 2009, pesquisadores vêm tentando identificar falhas e vulnerabilidades nos equipamentos e softwares, com o objetivo de detectá-las e corrigi-las. Ainda assim, a atuação humana continua desempenhando um papel importante nos processos de monitoramento, custódia e auditoria.