As eleições atraem cada vez mais ataques cibernéticos que têm como alvo políticos, empresas e o público em geral. Essas atividades vão desde campanhas de espionagem contra partidos políticos até operações que buscam influenciar opiniões, semear insatisfações ou minar processos democráticos.

Este relatório quinzenal oferece uma visão geral dos principais incidentes cibernéticos e das ameaças crescentes relacionadas às eleições gerais de outubro de 2026 no Brasil. Também apresenta recomendações sobre como organizações e indivíduos podem se proteger e mitigar esses riscos.

Principais incidentes

Nesta edição, abordamos os seguintes temas:

Brasil nega vistos a delegação dos EUA focada na integridade eleitoral

Segundo reportagem do New York Times publicada em 25 de julho, o governo brasileiro impediu a visita por receio de que autoridades norte-americanas levantassem dúvidas infundadas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro às vésperas das eleições presidenciais de outubro de 2026.

Sequência de vitórias de candidatos conservadores nas eleições latino-americanas continua

Segundo artigo da AP News publicado em 3 de julho, a vitória da política conservadora Keiko Fujimori nas eleições presidenciais peruanas de junho de 2026 é a mais recente de uma sequência de cerca de sete vitórias, nos últimos anos, de políticos de direita em grandes eleições na região. 

69% dos entrevistados esperam que os orçamentos de cibersegurança das empresas latino-americanas aumentem nos próximos 12 meses, segundo a RSM’s 2026 Latin America Cybersecurity Survey — mas apenas 16% afirmaram que o CISO de sua organização controla esses orçamentos

Recomendações de mitigação

  • Reforçar o monitoramento de campanhas de desinformação e falsificação de identidade, por meio de mecanismos de acompanhamento de redes sociais, mídia tradicional e fóruns online, a fim de identificar narrativas falsas, tentativas de se passar pela organização ou por seus representantes e campanhas coordenadas direcionadas à organização, seus executivos ou sua marca.
  • Implementar medidas adicionais de segurança, como conscientização em cibersegurança e autenticação multifator (MFA), além de monitorar possíveis comprometimentos de contas ou tentativas de falsificação de identidade, para aumentar a segurança de executivos e profissionais em posições de alta visibilidade.
  • Aumentar a vigilância contra phishing e engenharia social, reforçando a conscientização dos funcionários, realizando simulações de phishing e implementando controles de segurança de e-mail para reduzir a probabilidade de roubo de credenciais e de comprometimento inicial dos sistemas.
  • Revisar os controles de acesso, monitorar contas privilegiadas e garantir que informações sensíveis estejam devidamente protegidas em todos os canais. É extremamente importante assegurar a proteção de dados críticos durante períodos de aumento das tensões geopolíticas ou políticas, quando atividades de espionagem e coleta de inteligência podem se intensificar.
  • Estabelecer uma capacidade de inteligência de ameaças focada em riscos eleitorais e geopolíticos, implementando o monitoramento contínuo de acontecimentos políticos, cibernéticos e sociais para identificar riscos emergentes e apoiar a tomada de decisões de forma proativa.

Brasil nega vistos a delegação dos EUA focada na integridade eleitoral

A delegação dos EUA incluía dois altos funcionários do Departamento de Estado — Riley M. Barnes e Samuel Samson — que haviam planejado reuniões para discutir o sistema de votação brasileiro e preocupações relacionadas a uma possível falta de liberdade de expressão durante a campanha.

Alguns setores da sociedade política brasileira têm levantado preocupações sobre a segurança das urnas eletrônicas, incluindo uma possível vulnerabilidade a ataques cibernéticos, embora essas alegações tenham sido amplamente refutadas por especialistas eleitorais. Segundo a reportagem, o Brasil utiliza dados biométricos para verificar a identidade dos eleitores, os resultados das eleições são apurados e divulgados pouco após o encerramento da votação, e dezenas de observadores internacionais acompanham regularmente as eleições no país.

Possível impacto: Assim como ocorreu com a controvérsia envolvendo a visita do presidente argentino Javier Milei a São Paulo, no final de julho, para apoiar a campanha de Flavio Bolsonaro, permanecem sérias preocupações quanto à possibilidade de tentativas de interferência estrangeira nas próximas eleições presidenciais. Além disso, no que diz respeito especificamente à segurança das urnas eletrônicas brasileiras, é altamente provável que campanhas coordenadas de desinformação continuem a se intensificar, promovidas tanto por atores nacionais quanto estrangeiros.

Resultado das recentes eleições no Peru é o mais novo de uma sequência de vitórias de candidatos conservadores na América Latina

Segundo artigo da AP News, Fujimori é a mais recente entre uma série de candidatas e candidatos de direita a obter bons resultados na região, com campanhas que apresentam temas semelhantes, aparentemente centrados em preocupações com criminalidade, crescimento econômico e imigração. Abelardo de la Espriella venceu por uma margem apertada as eleições presidenciais da Colômbia em junho, com uma campanha fortemente pautada pelo combate à criminalidade. Resultados eleitorais ou reeleições recentes na Costa Rica, Chile, Honduras, Equador e Argentina também reforçam essa tendência significativa.

Embora pareça haver uma combinação de diferentes fatores envolvidos, especialistas observam que um “efeito Trump” também parece estar presente na região. Muitos desses candidatos de direita utilizaram em suas campanhas mensagens semelhantes às do presidente dos EUA e, em muitos casos, também se beneficiaram de apoio e endossos diretos de Trump, assim como de integrantes de seu círculo político.

Possível impacto: Embora a política latino-americana nas últimas décadas tenha frequentemente se caracterizado por uma alternância entre direita e esquerda ideológicas, essa tendência recente parece significativa e consistente. No contexto das eleições presidenciais brasileiras de 4 de outubro — e conforme evidenciado pela visita de Milei no final de julho —, é provável que potenciais interferências estrangeiras nas eleições brasileiras venham de diferentes fontes e assumam diversas formas. As preocupações com atores tradicionais, como Estados-nação, continuam legítimas, mas, no atual cenário de instabilidade geopolítica, é provável que a interferência estrangeira também venha de fontes novas e inesperadas.

Em foco: Urnas eletrônicas no Brasil

O Brasil introduziu as urnas eletrônicas pela primeira vez nas eleições municipais de 1996, com o objetivo de aumentar a eficiência e reduzir as fraudes associadas às cédulas de papel. Nas eleições gerais de 2000, o sistema já havia sido totalmente implementado em todo o país, tornando o Brasil o primeiro país a realizar eleições inteiramente por meio eletrônico.

As urnas eletrônicas brasileiras são dispositivos eletrônicos independentes, desenvolvidos para garantir a segurança da coleta dos votos, e cada urna possui dois componentes principais:

Terminal do mesário: Operado pelos funcionários eleitorais para verificar a identidade do eleitor, frequentemente por meio de dados biométricos.

Terminal do eleitor: É onde o eleitor registra suas escolhas utilizando um teclado numérico, com a confirmação exibida na tela. Os votos são criptografados digitalmente e armazenados na urna. Após o encerramento da votação, os dados são transmitidos com segurança para os centros de totalização, por meio eletrônico ou de dispositivos de transporte físico. O sistema não utiliza papel, o que permite uma apuração rápida, mas também gerou debates sobre sua auditabilidade.