As eleições atraem cada vez mais ataques cibernéticos que têm como alvo políticos, empresas e o público em geral. Essas atividades vão desde campanhas de espionagem contra partidos políticos até operações que buscam influenciar opiniões, semear insatisfações ou minar processos democráticos.

Este relatório quinzenal oferece uma visão geral dos principais incidentes cibernéticos e das ameaças crescentes relacionadas às eleições gerais de outubro de 2026 no Brasil. Também apresenta recomendações sobre como organizações e indivíduos podem se proteger e mitigar esses riscos.

Principais incidentes

Nesta edição, destacamos os seguintes temas:

Provável agente de ameaça ciberativista compromete sistema de alertas de emergência do Brasil e transmite alertas falsos

De acordo com um artigo publicado em 22 de junho pelo The Record, a Defesa Civil Nacional do Brasil informou, em 20 de junho, que um agente de ameaça havia acionado a plataforma de alertas da organização e enviado alertas falsos a cidadãos brasileiros em diversos estados.

Grupo APT ligado a Belarus tem como alvo contas do Gmail em campanha de phishing contra figuras públicas polonesas

Em 12 de junho, a equipe de resposta a emergências cibernéticas da Polônia, CERT Polska, informou que o grupo de ameaça persistente avançada (APT) Ghostwriter, ligado a Belarus, estava conduzindo uma campanha de phishing contra contas do Gmail de figuras políticas e públicas polonesas e de seus familiares. O objetivo da campanha é roubar credenciais e códigos de autenticação de dois fatores (2FA) para fins de roubo de dados.

3,4 bilhões é o número de e-mails de phishing enviados diariamente, segundo pesquisadores da StationX

Os pesquisadores da StationX também afirmaram que aproximadamente 83% desses e-mails de phishing enviados diariamente são atualmente gerados por inteligência artificial e que 36% de todas as violações de dados envolvem phishing, sendo esse o vetor inicial em 16% desses incidentes. Estima-se que as perdas globais anuais decorrentes de phishing cheguem a cerca de US$ 25 bilhões.

(Fonte: StationX, “Phishing Statistics 2026: Latest Attack Data and Trends”, junho de 2026)

Recomendações de mitigação

  • Reforce as proteções contra phishing e roubo de credenciais por meio da exigência de autenticação multifator (MFA), da implementação de controles avançados de segurança de e-mail, do monitoramento de atividades suspeitas de login e da realização de treinamentos de conscientização direcionados a funcionários, executivos e outros profissionais de alto risco.
  • Aprimore o monitoramento de engenharia social viabilizada por inteligência artificial, capacitando os funcionários sobre técnicas de phishing cada vez mais sofisticadas, validando solicitações inesperadas por meio de canais secundários e estabelecendo mecanismos claros para a denúncia de e-mails e mensagens suspeitos.
  • Implemente o monitoramento proativo de credenciais e alertas de domínio, acompanhando credenciais expostas, monitorando domínios semelhantes e comunicações falsificadas e investigando rapidamente tentativas de autenticação não autorizadas ou indícios de comprometimento de contas.
  • Estabeleça procedimentos para identificar e responder a atividades de desinformação e influência, monitorando redes sociais e plataformas públicas em busca de narrativas falsas, preparando planos de resposta de comunicação e coordenando processos de escalonamento entre as equipes de comunicação, jurídico, segurança e liderança executiva.
  • Proteja sistemas críticos de comunicação e notificação por meio de controles de segurança em camadas, gerenciamento de acessos privilegiados, monitoramento contínuo e testes regulares, a fim de reduzir o risco de envio de mensagens não autorizadas, uso indevido de sistemas ou interrupção de serviços.
  • Integre as equipes de cibersegurança, comunicação, continuidade de negócios e gestão de crises em um programa unificado de preparação para o período eleitoral, realizando exercícios conjuntos, revisando os planos de resposta a incidentes e validando os procedimentos para incidentes cibernéticos.

Agente de ameaça compromete sistema de alertas de emergência do Brasil e transmite alertas falsos

A Defesa Civil Nacional informou que retirou do ar o sistema Defesa Civil Alerta após um provável agente de ameaça cibernética transmitir notificações da categoria Alerta Extremo contendo a palavra “misantropia”. A última letra “a” foi substituída pelo numeral “4”, em uma prática conhecida como leetspeak, geralmente utilizada como forma de linguagem codificada por agentes de ameaça cibernética.

O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional do Brasil informou que o invasor enviou dez alertas não autorizados a celulares em São Paulo, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Paraná e no Distrito Federal. No entanto, ainda não foi possível determinar quantos dispositivos móveis receberam as notificações.

Com base no conteúdo vago e incomum do alerta, é provável que o ataque tenha sido realizado por um agente de ameaça ciberativista. É quase certo que agentes desse tipo terão como alvo, cada vez mais, sistemas nacionais de alertas de emergência nos próximos anos, devido à capacidade desses sistemas de distribuir mensagens a populações inteiras.

Impacto potencial: Assim como neste caso, agentes de ameaça podem tentar confundir e causar perturbações na população (ou no eleitorado) utilizando esses sistemas públicos de comunicação. Agentes com intenções mais maliciosas também poderiam potencialmente ter como alvo os sistemas eleitorais brasileiros para alterar os resultados das eleições ou simplesmente disseminar desconfiança ou suspeitas em relação aos resultados eleitorais.

Grupo APT ligado a Belarus tem como alvo contas do Gmail em campanha de phishing contra figuras políticas e públicas polonesas

Um dos grupos APT mais ativos monitorados pela CERT Polska, o Ghostwriter (também conhecido como UNC1151), já teve como alvo provedores de e-mail poloneses, como Intria, Onet e Wirtualna Polska. Portanto, o fato de o grupo passar a ter como alvo contas do Gmail representa uma ampliação do seu escopo de atuação. O grupo normalmente conduz campanhas de phishing para roubar dados sensíveis, incluindo listas de contatos, documentos confidenciais ou contas vinculadas, com o objetivo de realizar ataques subsequentes. O Ghostwriter já teve como alvo entidades ucranianas utilizando táticas de phishing semelhantes.

A CERT Polska informou que esta campanha teve como alvo grupos profissionais e regiões específicos, incluindo peritos judiciais e tradutores, utilizando e-mails fraudulentos que se passavam por comunicações oficiais de administradores do Gmail e eram enviados a partir de contas comprometidas. Os e-mails geralmente alegam a ocorrência de atividades suspeitas, tentativas de login não autorizadas ou violações dos termos de serviço e induzem os alvos a clicar em links que direcionam para páginas de phishing criadas para capturar credenciais.

Impacto potencial: Figuras políticas e públicas de alto perfil (e seus familiares) no Brasil são alvos atraentes para diversos tipos de agentes de ameaça, que agora podem criar campanhas direcionadas e sofisticadas utilizando ferramentas de inteligência artificial. Indivíduos devem evitar clicar em links não solicitados, e as organizações devem realizar o monitoramento proativo de credenciais e implementar alertas de domínio.

Em foco: Ataques cibernéticos contra sistemas de alertas de emergência

Nos últimos anos, ocorreram diversos ataques cibernéticos contra sistemas de alertas de emergência, incluindo ataques realizados por ciberativistas, aparentemente motivados por razões ideológicas, bem como por agentes de ransomware motivados por possíveis ganhos financeiros.

No final de 2025, a plataforma de alertas de emergência OnSolve CodeRED, utilizada por mais de 10 mil municípios dos Estados Unidos para enviar alertas meteorológicos severos e notificações de segurança pública, foi alvo de agentes de ransomware e ficou temporariamente inacessível. Em outro incidente ocorrido em 2025, hackers desconhecidos assumiram o controle de equipamentos de transmissão de rádio nos estados norte-americanos da Virgínia e do Texas, transmitindo mensagens obscenas e alertas de emergência falsos a ouvintes desavisados.

Considerações de segurança: Os sistemas públicos de alertas de emergência fazem parte da infraestrutura crítica nacional e estão se tornando alvos cada vez mais atraentes para agentes de ameaça. Quando realizados por razões ideológicas e limitados à desfiguração de sistemas, os impactos podem se restringir a um mero transtorno, embora a perda de confiança da população nesses sistemas continue sendo uma preocupação. No entanto, em casos de indisponibilidade prolongada ou de disseminação de desinformação grave, esses incidentes podem ter consequências catastróficas. É fundamental que os órgãos responsáveis priorizem a segurança em camadas, o monitoramento contínuo e o planejamento proativo de resposta a incidentes.