As eleições atraem cada vez mais ataques cibernéticos que têm como alvo políticos, empresas e o público em geral. Essas atividades vão desde campanhas de espionagem contra partidos políticos até operações que buscam influenciar opiniões, semear insatisfações ou minar processos democráticos.

Este relatório quinzenal oferece uma visão geral dos principais incidentes cibernéticos e das ameaças crescentes relacionadas às eleições gerais de outubro de 2026 no Brasil. Também apresenta recomendações sobre como organizações e indivíduos podem se proteger e mitigar esses riscos.

Principais incidentes

Nesta edição, destacamos:

Eslovênia confirma “influência estrangeira” nas recentes eleições parlamentares

Em 26 de março de 2026, a Agência de Inteligência e Segurança da Eslovênia (SOVA) anunciou ter “confirmado de forma inequívoca a existência de influências estrangeiras” nas eleições parlamentares do país, realizadas no fim de semana anterior.

Trabalhadores brasileiros adotam IA em ritmo superior ao de outras grandes economias

De acordo com uma pesquisa da PwC, que ouviu cerca de 50 mil profissionais em 48 países, trabalhadores brasileiros demonstram maior propensão ao uso recorrente de ferramentas de inteligência artificial. Além disso, relatam níveis mais elevados de satisfação com os resultados obtidos e ganhos percebidos de produtividade.

71% dos profissionais brasileiros afirmam ter utilizado ao menos uma ferramenta de IA no trabalho no último ano.

(Fonte: PwC – relatório “Global Hopes and Fears 2025”)

Esse índice representa a maior taxa de adoção entre todos os países analisados, situando-se aproximadamente 17 pontos percentuais acima da média global (54%).

Recomendações quinzenais de mitigação

  • As organizações devem estabelecer políticas internas claras que definam o uso aceitável de inteligência artificial generativa. Isso inclui diretrizes sobre inserção de dados, validação de resultados, questões de propriedade intelectual e limites éticos, com o objetivo de mitigar riscos legais, regulatórios e reputacionais, especialmente em um contexto de ciclo eleitoral sensível.
  • É fundamental manter atenção a tentativas de atores externos — sejam vinculados a Estados ou motivados por interesses comerciais — de manipular narrativas, vazar informações ou exercer pressão indireta sobre empresas como parte de estratégias mais amplas de influência relacionadas ao processo eleitoral.
  • As empresas devem se preparar para responder rapidamente a incidentes informacionais. Isso envolve desenvolver e implementar fluxos internos claros de escalonamento e planos de resposta, permitindo uma tomada de decisão ágil e, quando necessário, o engajamento com stakeholders externos.
  • Também é recomendável reforçar os controles de cibersegurança, especialmente no que diz respeito às comunicações corporativas, contas de executivos e informações sensíveis que possam ser exploradas ou instrumentalizadas em campanhas de influência ou desinformação.
  • Além disso, é importante monitorar ativamente canais digitais, incluindo redes sociais e plataformas de mensagens, para identificar conteúdos falsos, enganosos ou deliberadamente manipulados que possam impactar a reputação da empresa, seus colaboradores, clientes ou operações.
  • Por fim, deve-se fortalecer a comunicação interna e os treinamentos, capacitando os colaboradores a reconhecer conteúdos manipulados, comportamentos coordenados inautênticos e mídias geradas por IA, reduzindo o risco de que disseminem, ainda que involuntariamente, narrativas prejudiciais

A agência de inteligência eslovena (SOVA) afirmou ter confirmado a existência de “influências estrangeiras” nas recentes eleições.

  • 26 de março de 2026: Após uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, o governo da Eslovênia anunciou que a SOVA havia “apresentado evidências de atividades concretas de uma agência estrangeira de parainteligência, bem como contatos com entidades eslovenas”. Embora não tenha sido especificado a qual agência a declaração se referia, durante a acirrada campanha eleitoral surgiram alegações envolvendo o partido de oposição, o Partido Democrático Esloveno (SDS), e a empresa privada israelense de inteligência Black Cube. Ativistas e jornalistas locais afirmaram que vídeos encobertos e gravações sigilosas foram divulgados com o objetivo de constranger o governo e influenciar a opinião pública em uma disputa extremamente equilibrada. O líder do SDS reconheceu ter se reunido com representantes da Black Cube, mas negou qualquer irregularidade.
  • Potencial impacto: A possibilidade de influência estrangeira nas eleições brasileiras previstas para outubro de 2026 — seja por meio de atores estatais sofisticados ou de entidades privadas com motivações financeiras — é altamente provável, considerando o histórico documentado de tentativas de interferência em processos eleitorais. Além disso, com a crescente disseminação de tecnologias de IA e deepfakes, é esperado um aumento ainda mais significativo de iniciativas de misinformation (informações falsas, imprecisas ou enganosas) e disinformation (conteúdos falsos criados e disseminados deliberadamente para enganar e causar danos).

Trabalhadores brasileiros utilizam inteligência artificial em ritmo superior ao de profissionais em outras grandes economias

  • Os resultados do estudo da PwC indicam que a adoção de ferramentas de IA por profissionais brasileiros ocorre de forma mais intensiva em comparação a seus pares em outros países. Cerca de 26% dos entrevistados afirmaram utilizar ferramentas de IA generativa diariamente — quase o dobro da média global (14%). Segundo o relatório, 83% dos profissionais no Brasil apontaram melhora na qualidade do trabalho com o uso de IA, enquanto aproximadamente 79% relataram ganhos relevantes de produtividade, ambos os indicadores ligeiramente acima das médias globais. Por fim, cerca de 61% dos trabalhadores brasileiros esperam que avanços tecnológicos impactem suas funções nos próximos três anos, o que sugere que preocupações com segurança no emprego podem estar impulsionando a adoção antecipada dessas ferramentas.
  • Potencial impacto: Assim como no uso potencial de IA para misinformation ou disinformation no período que antecede as eleições de outubro de 2026, a adoção acelerada — e ainda parcialmente desregulada — de ferramentas de IA por profissionais no Brasil pode ampliar a exposição a riscos legais e éticos, tanto para indivíduos quanto para organizações. Nesse contexto, a implementação de estruturas eficazes de governança de IA, aliada ao monitoramento reforçado durante o ciclo eleitoral, será fundamental.

Em foco: Crescente preocupação global com a interferência estrangeira em processos eleitorais

  • As preocupações relacionadas à interferência estrangeira em processos eleitorais vão muito além de casos como os da Eslovênia e do Brasil e, com o avanço da era digital, tornaram-se generalizadas e verdadeiramente globais. Países altamente conectados e mais expostos às atuais dinâmicas de instabilidade geopolítica tendem a ser particularmente vulneráveis a esse tipo de influência maliciosa. Ainda assim, nenhum país está imune — o que varia é o foco e a intensidade das tentativas de interferência externa. Da mesma forma, não existe uma solução única para mitigar esse risco, uma vez que essas operações podem assumir diferentes formas, desde declarações relativamente moderadas de líderes estrangeiros até ações coordenadas e sofisticadas conduzidas por atores patrocinados por Estados, com o objetivo de enganar eleitores.
  • Possíveis medidas de mitigação: Ainda assim, há iniciativas que podem reduzir o impacto dessas operações de influência estrangeira, incluindo o fortalecimento da infraestrutura eleitoral e dos sistemas de comunicação, a rápida atribuição e divulgação pública dessas atividades, a interrupção de comportamentos coordenados inautênticos (como redes de contas falsas) e o aumento do nível de educação midiática e informacional da população. De forma geral, a construção de resiliência de longo prazo depende da capacidade dos eleitores de avaliar criticamente as informações por conta própria — uma exigência que se torna ainda mais relevante à medida que conteúdos gerados por IA avançam em sofisticação.